Da Rússia dos Czares à Rússia dos Sovietes

28-05-2012 21:17

 

A Rússia nas vésperas da Revolução. O “Domingo Sangrento”

 

  • No início do século XX, a Rússia era um extenso império territorial que se encontrava numa situação de atraso em relação às mudanças ocorridas nos países da Europa ocidental, devido a:
  • uma monarquia absoluta, chefiada por um imperador, o czar, que concentrava em si todos os poderes;
  • uma sociedade hierarquizada: a Igreja, a Coroa e os aristocratas possuíam a maioria das terras; os camponeses (cerca de 80% da população) trabalhavam nestas terras e viviam numa situação de miséria extrema; os operários (cerca de 3 milhões) levavam uma vida de miséria e a burguesia, minoritária, tinha pouco poder económico e político;
  • uma agricultura arcaica de pouca produtividade que era, no entanto, a base da vida económica do país;
  • uma industrialização incipiente, iniciada apenas no final só século XIX. Os principais centros de comércio localizavam-se nas grandes cidades (Baku, Moscovo e São Petersburgo, entre outros) pois não existiam boas vias de comunicação, de maneira a espalhar o comércio pelo país.

 

  • A 22 de Janeiro de 1905 (9 de Janeiro pelo antigo calendário em vigor na Rússia nessa época), domingo, realizou-se uma manifestação em São Petersburgo, capital do império, para entregar ao czar no poder, Nicolau II, uma petição assinada por milhares de trabalhadores que reclamavam:
  • a melhoria das condições de vida;
  • o fim da censura;
  • a constituição de um parlamento (Duma).

 

  • A guarda do czar, em resposta à manifestação, disparou sobre os manifestantes, matando milhares de trabalhadores. Este dia ficou conhecido como “Domingo Sangrento”. Em consequência, ocorreram várias greves e surgiram conselhos de operários, de camponeses e de soldados (sovietes) que difundiam ideias revolucionárias. Os sovietes eram controlados pelo partido bolchevique, cuja chefia tinha sido confiada a Lenine, em 1903.

 

  • Embora o czar tenha prometido a criação de uma Duma, a existência de partidos políticos e de uma constituição, os revolucionários organizaram uma greve geral em Novembro. Como resposta, os sovietes foram ilegalizados e os líderes da oposição, incluindo Lenine, foram presos e exilados. Das promessas do czar apenas se manteve a Duma, entre 1906 e 1917. Mas esta era controlada pelos aristocratas e pelo czar que tinha o poder de a dissolver.

 

  • A participação da Rússia na I Guerra Mundial agravou a situação de miséria do seu povo, não só devido ao elevado número de mortos como também à escassez de alimentos e à subida dos preços.

 

A Revolução “Burguesa” e a Revolução Bolchevique

 

  • A crise económica e a agitação social foram aproveitadas pelas forças revolucionárias para divulgar as ideias liberais e socialistas, desencadeando manifestações e greves por todo o país. A 12 de Março (27 de Fevereiro) de 1917, milhares de manifestantes invadiram a sede da Duma (Palácio Tauride) em Petrogrado (São Petersburgo). Formaram-se dois comités: um constituído pelos deputados moderados da Duma e outro constituído pelos sovietes de Petrogrado. Este acontecimento ficou conhecido como Revolução “Burguesa”, Revolução Liberal ou Revolução de Fevereiro.

 

  • A 15 (2) de Março, o czarismo chegou ao fim: o czar Nicolau II abdicou e a Duma nomeou um governo provisório. Institui-se um regime liberal parlamentar. Porém, o novo governo começou logo a ser contestado pelo comité dos sovietes. Estes eram contra a intenção do governo de manter a Rússia na I Guerra Mundial e reclamavam a legitimidade para governar. Lenine, já regressado do exílio em Londres, defendia uma revolução que entregasse todo o poder aos sovietes.

 

  • De 6 a 8 de Novembro (24 a 26 de Outubro) deu-se a chamada Revolução de Outubro ou Revolução Bolchevique. A 7 de Novembro (25 de Outubro) a polícia militar bolchevique ocupou pontos estratégicos da cidade, prendeu os ministros do governo provisório e dissolveu a Duma. O poder governamental foi entregue, no dia 8 (26) ao Conselho dos Comissários do Povo, liderado por Lenine. Com esta Revolução iniciou-se um período de profundas transformações políticas.

 

  • A Rússia transformou-se numa República Soviética, em que os sovietes tinham mais poder que a Assembleia Constituinte, saída das eleições. Entre as medidas que foram tomadas pelo governo bolchevique encontramos:
  • paz imediata com a Alemanha (Tratado de Brest-Litovsk);
  • abolição de toda a propriedade privada, como fábricas, terras e minas, que foram nacionalizadas sem o pagamento de indemnizações aos seus proprietários;
  • requisição pelo Estado das colheitas agrícolas, exceptuando o indispensável para consumo próprio.

 

  • Lenine adaptou, assim, as ideias marxistas e adaptou-as à realidade russa, surgindo, assim, o Marxismo-Leninismo. O seu objectivo imediato era a Ditadura do Proletariado, que seria uma fase de transição para o seu objectivo final – o Comunismo. No Comunismo o operariado seria a classe dominante e todo o poder da burguesia (capital, terras e fábricas) seria transferido para o Estado, sendo que este tinha de garantir o bem-estar de toda a população.

 

Do comunismo de guerra à NEP. A construção da URSS

 

  • As medidas tomadas por Lenine conduziram a Rússia a um período de guerra civil (1918-1920) entre os defensores do antigo regime (russos “brancos”), que contavam com o apoio de países como a França, a Grã-Bretanha e os EUA, que receavam a expansão das ideias revolucionárias, e os defensores do actual regime (russos “vermelhos”).

 

  • A guerra civil e a forte oposição externa levaram Lenine a radicalizar as suas posições, adoptando um “comunismo de guerra” (1918-1921), tomando várias medidas, tais como:

 

  • a proibição de outros partidos políticos, além do Partido Comunista-Bolchevista;
  • a instauração da censura;
  • a constituição de uma polícia política – Tcheka;
  • a perseguição, a prisão, a tortura e a morte dos adversários políticos.

 

  • A guerra civil terminou em 1920, com a vitória do Exército Vermelho (russos “vermelhos”) e arruinou o país. O “comunismo de guerra” contribui para aumentar o descontentamento da população, surgindo revoltas, greves e manifestações. Por isso, Lenine implantou a Nova Política Económica (NEP), retornando ao “capitalismo limitado por um tempo limitado”. Com a NEP, embora o Estado continuasse a controlar os principais sectores da economia, este permitia:
  • pequenas unidades privadas de produção agrícola e industrial;
  • a entrada de capitais e técnicos estrangeiros;
  • alguma liberdade de comércio, como por exemplo, a venda livre de produtos agrícolas.

 

  • Com a implementação da NEP, os níveis de produção aumentaram e, consequentemente, permitiu a melhoria das condições de vida da população e estabilidade política.

 

  • Em 1922, para atrair os povos que tinham sido anexados à Rússia e que possuíam etnias, línguas, costumes e religiões diferentes para o “espírito bolchevista”, Lenine conseguiu que fosse aprovada a fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

 

  • A sua Constituição, aprovada em 1923, estabeleceu a Federação de Estados e reconheceu as diferentes nacionalidades e a diversidade cultural.

A Revolução Russa de 1917 foi um evento político realizado em função da crise da autocracia czarista, levando à eliminação desta culminando na tomada do poder pelo governo bolchevique. A Revolução deu origem à primeira nação socialista do mundo com a formação da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Diversas conjunturas levaram ao colapso da monarquia do Czar Nicolau II. O país ainda vivia em regimes considerados feudais, com a situação econômica basicamente agrária, ou seja, não se industrializaram assim como outros países da Europa. Contudo, é errôneo pensar que a Rússia era um país somente agrário. No governo do Czar Alexandre III, entre 1881-1894, houve um estímulo industrial, porém de pouca proporção já que o país era muito populoso. Desse modo a industrialização limitou-se às grandes cidades, criando um grande número de operários e uma classe média ascendente. Um aspecto comum entre os dois era pobreza, pois, assim como os camponeses viviam nessas condições extremas, os operários eram explorados pelos industriais. Contudo, as mudanças em relação ao campo tornaram-se visíveis, já que, a escolarização era necessária para a indústria; e o contato com culturas de outros países tornou-se mais constante. Mudou, assim, as manifestações e costumes nacionais, que sofriam, naquele momento, outras  influências.



Outra conjuntura era a diversidade étnica existente na Rússia. O governo russo implementou, durante o reinado de Nicolau I (1825-1855), uma política chamada nacionalidade oficial, que possuía três pontos base fundamentais: a Igreja Ortodoxa Russa; autocracia dos Czares; e o predomínio do povo eslavo. O país era composto por diversos grupos diferentes, entre eles, poloneses, bálticos, asiáticos, finlandeses, e as minorias não eram protegidas pelos governos czaristas. Eram vitimas de violências proporcionadas pelas maiorias étnicas que lá viviam, e o descaso na segurança, entre outros problemas, fazia com que surgissem movimentos separatistas.

Outra grande crise foi a militar. Apesar de possuírem um dos maiores exércitos do mundo, haviam sofrido baixas significativas com as diversas guerras ocorridas durante o século XIX, como a Guerra da Criméia (1853-1856) e a guerra contra o Japão no século XX (1904-1905). Ao entrar na Primeira Guerra, eles estavam com pouca credibilidade com a própria população.

Além dessas conjunturas, uma efervescência cultural que ocorreu no país nesse período incomodou ao governo czarista, já que a liberdade de manifestação de grupos contrários era censurada. Todas essas crises e problemas encontrados foram estopins para o surgimento de movimentos políticos bem organizados que procuravam transformações na Rússia.

Os partidos políticos mais conhecidos foram o POSDR (Partido Operário Social-Revolucionário Russo), de 1898 e o Partido Social-Democrata Russo, de 1902. Porém, houve divisões dentro desse entre duas facções:

Bolcheviques, mais radicais, liderados por Lênin, buscavam uma luta revolucionária para a transformação efetiva da política na Rússia

Mencheviques, mais moderados, liderados por Martov, acreditavam num desenvolvimento pleno do capitalismo antes de iniciarem uma luta revolucionária.

Nicolau II, então, criou a Duma, uma espécie de parlamento, algo inexistente até então em seu governo, numa tentativa de ganhar tempo e contornar o problema. Ele prometeu, no Manifesto de Outubro, entre outros, realizar reformas na Rússia, e criar uma Constituição, portanto, daria início a um governo constitucional. Alguns partidos com tendência mais burguesa aceitaram a oferta, os que visavam uma transformação total não. Em 1905, a situação tornava-se cada vez mais tensa para o governo, pois os movimentos políticos que buscavam uma reforma estrutural no país cresciam. As promessas realizadas pelo czar não se cumpriram e a Duma tinha uma ação limitada e não resolveu a crise econômica e social.

Em janeiro 1905 ocorreu um episódio denominado Domingo Sangrento, no qual uma manifestação com cerca de 200 mil pessoas foi duramente repreendida pela guarda de Nicolau II, resultando na morte de diversas pessoas. Foi um momento chave para a explosão de greves e motins no país, como a queima de fazendas pelos camponeses, ou até a conhecida revolta no encouraçado Potemkin. Nesse mesmo ano surgiam os primeiros sovietes,  que eram conselhos formados por trabalhadores que organizavam os movimentos contra o regime autocrata.



Com diversos problemas graves no país, além da perda significativa de soldados na Primeira Guerra, a situação do governo absolutista de Nicolau II tornou-se insustentável. Em fevereiro de 1917, um grande número de trabalhadores e manifestantes invadiram uma reunião da Duma e os soldados russos se recusaram a reprimir o movimento, temendo um massacre como ocorreu em 1905. Portanto, sem força política e militar, o czar abdicou e instaurou-se um governo provisório. Essa foi a chamada Revolução de fevereiro de 1917, considerada de teor mais burguês.

Começou aí outra disputa: quem ficaria no poder. De um lado os sovietes de Petrogrado (até então a capital da Rússia), trabalhadores e militantes socialistas; de outro os deputados da Duma, basicamente liberais. Estes, ao fim, lideraram o governo provisório, com o comando do príncipe Georgy Lvov, e como ministro da Guerra um indivíduo que passaria a ser conhecido na História, Alexander Kerensky.  Um dado importante é que a Rússia manteve-se na guerra, e o ministro organizou uma ofensiva contra a Áustria-Hungria, mas, novamente, obteve baixas. O grupo de Petrogrado queria outra maneira de governar, lutavapela distribuição de terras para os camponeses, a criação de um exército voluntário, fim da participação na guerra e a mudança definitiva na política russa.

Lênin (Vladimir Ilitch Ulianov) estava no exílio, devido ao seu posicionamento contrário aos czares, porém regressou quando Nicolau II abdicou. Uma das suas primeiras ações foi dirigir-se à população incitando uma revolução socialista, já que o governo provisório não era a melhor solução aos problemas russos. Buscava a nacionalização das propriedades privadas e bancos, era contra o modelo liberal e publicou as Teses de Abril, da qual surgiu  o lema “Todo poder aos sovietes”, com a premissa de um governo dirigido ao povo russo pelos trabalhadores.



Toda uma articulação do movimento de esquerda simbolizado pelos sovietes passou a vigorar com mais força, principalmente com a decisão do governo de permanecer na Primeira Guerra. Leon Trostky já organizava um exército bolchevique, a Guarda Vermelha, e os trabalhadores, percebendo sua força política, a fraqueza do governo de Kerensky (que se tornou chefe de estado em julho de 1917), e incitados pelos discursos calorosos de Lênin, iniciaram a revolução soviete.

Em outubro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder em diversos locais da capital, bloqueando vias de acesso, como estradas e ferrovias. A partir daí, invadiram o Palácio de Inverno, a sede do governo, cercaram os membros do governo provisório, e fixaram-se no local. A Revolução de Outubro estava feita, só faltavam as diretrizes do novo governo de influência socialista.  O poder agora estava com o Conselho de Comissários do Povo, no qual a maioria era bolchevique, contudo, existiam partidários que ainda não estavam plenamente satisfeitos ou que possuíam certa resistência à revolução. Um consenso entre todos era a necessidade de uma assembléia constituinte. Com a votação, os bolcheviques perderam a maioria por poucos votos e Lênin, sendo o dirigente do partido, publicou Teses sobre a assembléia constituinte, pela qual argumentava ser uma “democracia soviete” mais importante do que a própria constituinte. Apesar de votos contrários, a cúpula do partido decidiu fechar a assembléia, e um governo somente soviete passou a vigorar.

Lênin publicou diversos decretos embasados nas Teses de Abril, e um dos primeiros atos do governo foi o tratado de Brest-Litovsk, em 1918, pelo qual a Rússia reconhecia sua derrota na guerra. Além disso, outras ações foram o confisco de propriedades privadas e a distribuição aos camponeses, assim como a nacionalização de algumas empresas.

Exercícios Interactivos
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